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Sábado, Janeiro 12, 2008
Cheguei a concessionária pontualmente às 14. Talvez três minutos antes, talvez três depois. Precisei aguardar por algum tempo o técnico preparar um outro carro e me dirigi para a sala de espera. Lugar pequeno, com algumas cadeiras e ambiente refrigerado. No local, encontrávam-se também duas pessoas sentadas, um filtro de água e uma TV que exibia a reprise de uma novela fútil da Globo. Sentei-me, carregava comigo um saco plástico e dele retirei o livro de Casares. Escolhi um conto qualquer, ou melhor, pelo número de páginas. Não teria tempo para completar uma história mais longa.
Mesmo com todo o ruído da TV, afundei-me em "O lado da sombra". Com a citação "Assim que atravessas a rua, estás do lado da sombra" fui introduzido em uma cidade tipicamente subdesenvolvida e misteriosa, ainda no início do século 20. O protagonista tinha algo de sombroso e não se identificou nas primeiras palavras. Vagou pela cidade e descrevia de forma negativa seus mínimos detalhes. Cheguei a conhecer Veblen, aparentemente um personagem fantasma e amigo do protagonista, mas não consegui ir muito adiante.
Infelizmente, na oitava das vinte páginas do conto fui interrompido pelo técnico que me chamou para a mecânica dos automóveis. Perdi algum tempo entre filtros, óleos, engrenagens, preços e avaliações de necessidade. Depois de algumas negociações, concluí minha parte e deixei o carro para receber o serviço.
Peguei um ônibus para casa. Acomodei-me na penúltima poltrona do lado direito. Na minha mão segurava o saco plástico com o livro de Casares embrulhado. Retirei-o do saco ansioso em continuar a história. Após algumas páginas de palavras fantásticas, a vertigem me tomou o estômago. Mesmo assim continuei lendo e resisti a toda ânsia de vômito.
Cheguei em casa ainda nauseado e com sono. Porém, o livro ainda me fitava e se oferecia para mais uma sessão de leitura. Estupidamente não o li e até hoje o conto está incompleto e o lado da sombra permanece desconhecido.
postado por: Lucas S. - 6:13 PM
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Sexta-feira, Agosto 17, 2007
Desiluminado era aquele lugar, o cheiro de madeira saturava o ambiente e me dava náuseas. Minha mãe estava comigo, carregávamos algumas malas, dentre elas uma de rodinhas maior. O lugar escuro lembrava um hotel desconhecido e parti sozinho para vasculhá-lo.
Encontrei um restaurante. Lá trabalhava Ella, estava de costas e pouco me deu atenção. Minha tentativa de aproximação foi de fato em vão, recebi apenas uma
justificativa: "Estou procurando meu tio".
No mesmo momento saí do restaurante e voltei a minha caminhada pelo hotel. Através de uma escada chego ao primeiro andar e percebo toda estrutura de madeira. A iluminação estava cada vez menos presente e ao seguir em frente esbarro em um parapeito.
Subi no dito cujo, fiquei caminhando sobre ele e observando o escuro que havia lá em baixo. Com o tempo fui perdendo o equílibrio e após uma forte sensação de suicídio acabei balançando e caindo no "nada negro".
Acordei numa cama de casal. Mais uma vez o local estava pouco iluminado permitindo apenas que conseguisse observar o lençol branco que me cobria. Ao meu lado estava minha mãe que acabou acordando com meus movimentos no colchão. Falou-me algo como: "O que está acontecendo com você?". Não respondi e voltei a dormir.
Dentro de um outro sonho a história começa a se remontar. Minha chegada com as malas no hotel escuro e depois a caminhada. Dessa vez me deparo com uma
escada diferente e maior. Pacientemente subo os intermináveis degraus e lá em cima encontro Ella me esperando.
A garota aproxima-se rapidamente de mim. Um pano preto cobria sua cabeça, escondendo um pouco o rosto. Abraçou-me forte, quase sufocando, depois pronunciou palavras de carinho que surtiam como um alivio à toda aquela pressão. Em seguida, inevitavelmente surge o beijo, incontrolável, prazeroso e profundamente sedativo.
Porém, há algo de estranho naquela boca. Seriam dentes perdidos? Formas irregulares? Espinhos pontiagudos? Lâminas afiadas?
Não sei, mas o gosto de sangue invadiu minha boca.
Afastei-me logo em seguida, fazendo com que Ella me encarasse com um sinistro e inesperado olhar angelical. Após alguns segundos de silêncio, sou questionado: "Por que parou?"
Eu, mudo como sempre, permaneço estático com as solas pregadas ao chão. Já não via mais nada ao meu redor, apenas sombras e a minha frente aqueles olhos esbugalhados me fitavam.
Ella repete a última sentença por mais três vezes, dá um grito de ódio ensurdecedor e pula para cima de mim como um bicho devorador.
postado por: Lucas S. - 5:18 PM
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Segunda-feira, Maio 21, 2007
Meu amor? É você que está ai? Não a reconheço.
Que batom é esse? Vermelho indiscreto, você jamais usou algo parecido.
E esse talco branco que esconde as maçãs do rosto mais lindas do mundo?
Não consigo entender como podes até confiscar a liberdade de suas madeixas.
Seu cabelo nunca foi tão engomado, preso e ríspido.
Alguma dor? O que te incomodas? O que justifica essas
mudanças? Esse silêncio fúnebre? Esse descaso? Que viagem é essa sem rumo? Que não olha para a origem cada vez mais distante?
O sabor? Cade aquela respiração ofegante? Aqueles sinais rítmicos que excitam os
os sentidos e colocam em harmonia o meu corpo. O suor que faz lubrificar com
perfeição os mecanismos que me colocam em atividade. As palavras ofegantes discretas porém perfeitamente sirênicas e confortantes.
Por favor,
Eu só preciso de um afago seu... Vamos, apenas um afago!
Preciso senti-la, meu bem...
Um afago...
Um simples afago para diluir toda essa necessidade desesperadora.
Elias Levi
Tudo bem, podem fechar o caixão.
postado por: Lucas S. - 1:55 AM
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Quinta-feira, Dezembro 14, 2006
ENCLAUSURADO
Parado, sentado.
Preocupado, fechado.
Cansado, sedado.
Tapado de lado.
Desocupado, isolado.
Colado, calado.
Alado, selado.
Tratado sem fado.
A justiça foi feita, hoje estou preso e minha pena é infinita. Cometi o maior dos crimes: Envelhecer antes do tempo.
postado por: Lucas S. - 12:58 AM
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Quarta-feira, Fevereiro 01, 2006
Foi ímpar. A sensação de acordar e, ainda meio tonto, flertar aquele pedaço de papel que jazia bem ao lado da minha cama. A manhã era de sábado, o efeito alcoólico da noite anterior ainda me afetava. Porém, ao observar mais uma vez aquela singela espécie, com suas bordas canarinhas, o conforto me tomou o corpo. Minuciosamente parti a ponta e degustei as palavras como um bebê em contato pela primeira vez com o leite materno.
Há muito tempo que aquele tipo de prazer não me pertencia. Os dias mudaram meus hábitos, o hábito do mundo. Formas digitais mais práticas e mortas substituiram as palavras escritas e que pulsam.
Li, reli, treli e não cansei. A forma itálica exibia junto com seu conteúdo toda sua incomensurável beleza.
Física e lógica.
postado por: Lucas S. - 12:39 AM
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Sábado, Novembro 19, 2005
- Alguém responde por favor!
Um palmo na minha frente era sombra. Minha visão ainda se acostumava com o escuro. Cheguei lá não sei por qual motivo, mas percebia que não estava só. O ambiente aparentemente se resumia em uma casa antiga, com vários quartos e o forte vento denotava as janelas abertas. Procurei por um interruptor de luz, tateando a parede achei facilmente, porém ao tentar iluminar o lugar:
"Atrás de você"
Senti uma modificação corporal. Talvez hormônios, não sei. Necessitava urgentemente de iluminação. Pouco me importei com as indicações daquela voz estranha, mas não parei de pressionar todos os interruptores que sentia na parede, retornando apenas a mesma voz, cada vez mais alta e próxima.
"Atrás de você"
Senti o aguço da minha visão, agora já conseguia ver alguns móveis e quadros na parede. Dentro de um dos cômodos da casa encontrei a sombra de uma pessoa que me parecia familiar. Gritei por ajuda, disse que precisava de luz, balancei o corpo nas minhas mãos e quase não senti vida na sua pele fria.
"Atrás de você"
Ato reflexo falho, olhei para trás, me vi deitado em uma cama e tentando acordar. Um braço atravessou minha garganta e firmemente a sufocava. Depois de alguns sons, muitas luzes e imagens, acordei tossindo com as mãos no meu próprio pescoço.
postado por: Lucas S. - 2:26 AM
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